Alteridade e voto: diálogo entre mulheres
Maria
Clara Bingemer
A
angústia e o desanimo é grande na medida em que se aproximam as eleições para
presidente, governadores e representantes Legislativos. Os últimos dias foram
de terror, gerando perplexidade em todos aqueles que amamos o Brasil e sonhamos
com algum futuro para este país.
Será
possível que não exista mais ninguém honesto por aqui? Ou se existir, será
possível que essa voz da ética e da justiça esteja oculta e escondida, incapaz
de se fazer ouvir em alguma instância? Como acreditar ainda no pátria amada, na
patriazinha de Vinicius de Moraes se não podemos transmitir nem a filhos, nem a
netos, nem a alunos algum motivo para ainda acreditar e não viajar no fim de
semana das eleições, nem anular o voto em sinal de raiva e Descrença?
O
artigo de uma mulher gaúcha, jornalista reconhecida e que leio todo domingo na
revista do Globo, reavivou-me a esperança. E tão identificada me senti que
espalhei seu texto aos quatro ventos, sedenta por ver se encontrava igual ou
parecida ressonância por ele produzida. Devo dizer que as reações me
surpreenderam. Vários grupos de WhatsApp dos quais participo começaram a
replicá-lo e enviá-lo em várias direções.
Martha
Medeiros com sua linguagem ágil e certeira nos ensina ali que voto é algo que
se realiza a partir do outro, da alteridade a partir da qual existimos e somos.
Como diz o filósofo judeu lituano Emmanuel Levinas, é o outro que me diz quem
eu sou e é a partir dele que posso entender-me a mim mesma.
Sem
citar Levinas, mas sim trazendo sua experiência vital, Martha avisa aos
candidatos que não devem preocupar-se com ela. Já seus direitos e desejos estão
sobejamente atendidos pela família no seio da qual nasceu, pelas circunstâncias
socioeconômicas que foram as suas, pelos privilégios que sempre teve, quais
sejam: saúde, educação, Carinho, trabalho. Os candidatos deveriam não se
preocupar em atender necessidades de quem não as tem e sobretudo de quem na
verdade os elege para poder continuar mantendo seus privilégios e a
superfluidade de suas vidas. Devem sim, responder aos que são privados e espoliados
de seus direitos desde o mais elementar até o mais complexo.
Que
tal começar por comer? Trata-se de uma evidência? Pois Leitor/leitora, não o é
para muitíssimas pessoas neste país imenso. Martha celebra a certeza de que
almoçará no dia seguinte, informando então que há muitos que não têm essa
certeza. Não se trata de saber o que vai comer, mas se vai comer. Segundo o
profeta Dom Pedro Casaldáliga, arcebispo de São Felix do Araguaia, falecido em
2020, só existem dois absolutos: Deus e a fome. Seguindo esse grande místico e
mestre, a certeza de Martha Medeiros nos diz que o voto deve ir na direção
daquele candidato que terá como prioridade do seu governo extinguir a fome
entre a população brasileiro.
O
rosto plural e desnutrido da alteridade cresce à nossa frente, quando pensamos
que comemoramos estar o Brasil agora for a do mapa da fome. É realmente uma
excelente notícia. Mas o processo precisa continuar. Segundo a ONU, o país
manteve a proporção da população subnutrida abaixo de 2,5% entre 2023 e 2025.
No entanto, 2,5% perfazem mais de 5 milhões de brasileiros, que parece que
ainda vivem em insegurança alimentar severa, não podendo nutrir-se do que necessitam
para continuar vivos.
A
escritora menciona rostos diversos que povoam o planeta da alteridade
brasileira: "quem tem 3 anos e é cuidado por um irmãozinho de 9, enquanto
a mãe realiza serviços domésticos na casa dos outros — aos sábados, inclusive;
quem tem 12 e teve que sair da escola para ajudar na renda familiar; quem tem
24 e ainda não conseguiu o primeiro emprego"".
Todos
esses outros se encontram nos grotões da miséria que ainda existem país afora.
Ou estão nas ruas por onde passamos, na porta de nossas casas, na mídia como
vítimas da violência diária. Martha avisa aos candidatos à presidência que é em
direção a estes e estas que deve ir sua preocupação. Não em reforçar
privilégios de quem já os tem.
Voltando
a Levinas, a alteridade preside a relação ética em que o "eu" assume
uma responsabilidade infinita e incondicional pelo outro visto como um ser
transcendente que não pode ser reduzido ao conhecimento racional. O outro é um
mistério imanipulável e seu rosto é a manifestação dessa presença viva e
vulnerável. O outro traz consigo um mandamento ético fundamental: "Não
matarás".
Isso
nos diz que nosso voto é de suma importância. Pode fazer acontecer a vida ou a
morte. Talvez não para nós, mas para outros que vivem no limite do possível do
que seja uma vida decente. Votar em quem não priorizará essas urgências para
que haja vida é, no dizer de Martha – expressão que assumo também como minha –
uma indecência.
Não
sabemos o que nos reservam as semanas que ainda nos separam do primeiro turno.
Para mim, no entanto, essa coluna de uma irmã de gênero e sensibilidade, lançou
uma luz de esperança. Obrigada, Martha.
Maria Clara Bingemer é teóloga
e pesquisadora do programa de pós-graduação em teologia da PUC-Rio, onde foi
professora titular por mais de 40 anos. Escreveu entre outros livros A sede de Deus nos desertos contemporâneos:
Aproximações teopoéticas, SP, Recriar, 2025.







